Libertação

          Tinha tudo para ser um dia qualquer. Primeira terça-feira do ano. Nunca vou saber sua verdadeira intenção. Porém houve mais um passo para minha libertação.

          Acordei, dia como outro qualquer, fiz café da manhã, preparei lanche do marido que ia viajar. Nada novo, tudo igual. Liguei para a irmã que estava doente, mas já tinha melhorado. Fui cuidar na vida, eis que o telefone toca, reconheço a chamada, e me preparo para mais uma batalha. É sempre batalha. A primeira do ano. Tudo pode dá muito certo, ou termina tudo errado. Ela liga e sempre é assim. Tenta derrubar, enquanto tento ficar de pé. Ruim quando têm gente que, possui e sabe que têm esse poder sobre o outro. E ela sabe. Mais uma batalha, ver quem cai primeiro. Ela ataca para ferir de um lado, e eu tento ficar de pé do outro, me defendo e revido. Já entendi, é coisa besta essa de medir força. Depois de tudo que já causou, sabe que ainda pode machucar. Só que estou diferente. Estou em processo de cura. Me aceitando. Encontrei o lado bom no egoísmo, escudo. Me fecho, e não aceito mais dores, evitando reabrir as antigas. Sempre é assim. Palavras que ferem mais que armas e lutas físicas.

         Feriam, na verdade. Desde de novembro de 2016, não machucam mais. E as feridas existentes um dia saram. A batalha prometida para hoje, não maculou ao menos meus curativos. Mesmo sendo igual as outras vezes, esse chove e não molha, esse morde e depois assopra. Já não passamos por tantas coisas? Já não está na hora de evoluir? Reconhecer que errou? Para que reviver o passado, que só faz adoecer o presente e desfazer o futuro?

          O tempo é a prova que tudo cura. Demorei 9 anos, caindo dentro de um poço que era sem fundo. Para começar a sair dele agora. Nada me prende mais aqui embaixo. Espero conseguir sair dele agora para não mais voltar. Estou procurando as pedras certas para escalar e já aprendi o caminho da subida. Hoje, começo a ver que dói está no fundo do poço, mas para saber de sou feita, precisei chegar lá.

            Durante a minha estadia solitária, porque ninguém vai para o fundo com você, alguns lhe colocam lá e lhe abandonam a própria sorte. Quem um dia disse se importar, afasta-se. Não é bonito, o fundo do poço. Só fica quem realmente se importa. Alguns tentam lhe tirar de lá, jogam cordas, colocam escadas, falam palavras de incentivo, porém nada funciona realmente, as cordas escorregam, as escadas não alcançam e as palavras são apenas ecos e não são ouvidas até que se esteja pronto, entenda como se chegou ali, o porquê de estar ali, na feiura do fundo do poço. Após 9 anos entendi, e me sinto pronta para sair. Encontrei o meu ponto de quebra, a minha pedra em falso que sempre me recolocava no fundo de novo. Agora estou procurando as pedras firmes aonde posso me apoiar e sustentar. Reencontrei minha força. Força, essa que reaprendi a ter.  Para sair daqui tenho que tê-la, pois a trajetória não é fácil. Contudo agora acredito, que sim, terei, finalmente, minha libertação.

          Cai sem interferência alguma da gravidade nesse poço, porque deixei-me acreditar em inverdades. Por muito tempo, acreditei que tinha culpa. Não porquê aceitei que me fizessem crê, que a culpa fosse minha. Entender? Não sei se um dia entenderei. Só sei que não é fácil falar tudo isso, a garganta trava, a mão desaprende a escrita, as palavras somem e os olhos transbordam. E tudo volta, quando o coração sangra em palavras.

            A maioria das feridas abertas foram feitas por palavras. As físicas, a dor se esquece, o corpo se esquece. Mas as palavras, elas revivem fácil na mente. Aquilo que é dito por quem mais é importante na nossa vida, se repetido por muitas vezes, cauteriza a mente e a gente acredita. As palavras assumem o papel do cautério, destruindo quem você é como destrói os tecidos orgânicos e os convertem em escaras, feridas, crostas de tecidos mortos por traumatismo. E assim fica nossa mente, uma constante ferida aberta, que lateja as palavras repetidas para dizer que a ‘culpa é sua’, que tudo de ruim foi causado por você. Foi como sobrevivi durante esses nove anos, tentando me redimir de culpas impostas. E quando entendi que a culpa não era minha, foi quando parei de cair e encontrei o fundo do poço, sozinha, ferida e no escuro.

           Antes mesmo da nossa batalha de hoje, eu já entendia que não fui responsável por nada que nos aconteceu. As tuas ações sempre são as mesmas. Você depositou em mim, suas frustrações, seus erros, suas culpas, quero crer que achava, talvez, que eu suportaria. Te juro que tentei, tentei suportar, carregar e absorver tudo o que se perdeu porque eu fiz alguma coisa errada, de tanto ouvir você repetir que eu era errada. Queria fazer surgir em mim um erro que não era meu. Por querer obedecer e ser aceita, entrei nesse caminho pedregoso, indo ao abismo do leito da morte na forca ou caindo dentro do poço, como gosto de aludir, em ambos caminhos sempre há o Carrasco que detém o poder da sua vida, podendo ser executor ou libertador.

             Depois de tanto tempo, me martirizando, causando estragos irreparáveis, pois após a ferida, a pele sara, contudo, sempre resta uma cicatriz. Como disse, sempre me preparo para batalha, quando vejo sua ligação, mas uma mágoa na ferida aberta, ou talvez fazer outra. Pode ter sido essa sua intenção. Não posso julgar seu coração. Apenas, aprendi que devo me proteger, mas não lhe disse isso. Buscar minha curar é uma tentativa de autopreservação. E eu, estou me curando.

           Atender sua ligação faz parte do processo de cura, é treinar autodefesa. Tivemos, então a nossa nobre batalha. E no decorrer dela você percebeu que tinha algo diferente. Você não conseguiu ferir, e pela primeira vez, eu consegui vencer uma batalha. Pelo menos eu acho, acredito e sinto mesmo. Como disse não vou julgar se tudo o que disse foi mais uma artimanha ou estratégia, ou se você me ouviu e conseguiu ver os danos, que sempre foram visíveis de tudo que causou, e de coração puro, ou por simples vontade de me libertar, tenha também entendido que “Eu Não Tive E Não Tenho Culpa De Nada”. Como você mesmo disse “você (eu) só não queria mais sofrer e nem queria que todos nós sofrêssemos tanto“.

           Durante esse período, nós todos sofremos tanto, foram tantas lágrimas, mágoas. Você com sua consciência de tudo que fazia e eu com a minha tentando incrustar suas palavras tão duras. Porque se era você falando tinha quer verdade. Tinha que fazer valer sua verdade, em mim, fazer isto foi o que mais matou-me aos poucos. Tentei ser o que você queria que eu fosse, lhe agradar e ser aceita. Vesti carapuças que não me serviam e então cai no poço. Reconhecer e relatar, expulsar as palavras que fizeram morada o meu coração dói, sangra, sai em forma palavras e lágrimas. Todavia tem um gostinho bom na boca, mesmo com a garganta seca.

           Enquanto transfiro o que vivi, revivo e vejo que não sou o problema. Faz parte da cura, a aceitação do que eu realmente sou. Me acho em mim. Não vou julgar seus atos de hoje, não tenho e nem quero este poder. Um dia você lerá essas linhas, assim como você terá a chance de repetir tudo novamente olhando em meus, como disse que queria fazer, porém quero ressaltar, eu já sabia que não tenho culpa, só demorei para perceber, e quando ouvir você afirmar isso, foi libertador para mim. Sempre tão persuasiva ao fazer crer no oposto. Obrigada por quebrar minhas algemas e abrir a porta da prisão.

         Depois de me libertar você ainda confessou algo que já sabia também, pois compartilho do mesmo sentimento, a falta. Então, sei que sentes falta. Compreendo seu desejo que fossemos e sejamos próximas um dia. É, um dia quem sabe, né! Você também está no seu poço, ainda, talvez não tenha se dado conta, mas você tem muito o que escalar. Por isso, desde já, peço desculpa, se não posso mais te agradar. Por que estou me refazendo, e entendi, que assim como você, tenho que achar minhas próprias pedras. E, se caso isto lhe ajudar, na tua trajetória, lhe perdoou por tudo que me afligiu, por tudo que sofri, por tudo que perdi, pelos seus atos. E principalmente por suas ausências e palavras sempre tão duras. Contudo, peço que me perdoe se revidei suas palavras duras, já estava muito machucada e infelizmente não tinha outra maneira de me defender.

             Desejo do fundo do meu coração, lá onde reside algumas poucas boas lembranças que restaram, assim como disse no seu aniversário, natal, ano novo, que espero que seja feliz. Sempre esteve em meus anseios, a sua felicidade. Mesmo quando teu desejo foi se ausentar de mim. Mesmo quando fez-me crer que meu sofrimento lhe agradava. Mesmo quando fez-me acreditar que tudo ruiu por minha causa. Me encontro em processo de cura, já disse isso, de cicatrização também. Busquei ajuda nos livros, cadernos, palavras e Deus. Agradeço, do fundo da Minh ‘alma, por libertar-me hoje. Alívio, estou repleta disso agora.

             Entretanto ainda necessito de tempo, estou escaldada em relação a tudo. Sou realista em dizer que ainda teremos morde e assopra até que entenda que você precisa encontrar o seu lugar no mundo. Você precisa achar o seu ponto de quebra. Sua ação de me libertar hoje, foi crucial para você também, foi um passo para sua cura. Então, aviso logo, não prometerei nem flores, nem espinhos. Só espero que consigamos seguir em frente, sem passados revividos com dores. Tente, se dá uma chance, como faço comigo, se reerga. Aproveite as coisas boas que está a sua volta. Eu continuarei aqui, achando minhas pedras, buscando a luz do topo do meu poço.

            Espero, que nos encontremos lá cima um dia.

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3 comentários sobre “Libertação

  1. Narcótico Pensador disse:

    A libertação é a chave do sucesso e é isso o que você está fazendo por aqui no WordPress. Amei a sintonia de suas palavras. um sentimentalismo real e apurado. Fico feliz por existir [Mais um seguidor rs]

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